1976: O INTERESTADUAL OFICIAL DA CBD VENCIDO PELO VITÓRIA

A Copa do Nordeste é a mais tradicional, aculturada e identitária competição regional do país. Vencê-la não é só mais um título pra o clube, mas um motivo de orgulho e soberania numa região que tem tamanho, potencial, história, identidade própria, número populacional e cenário esportivo suficiente pra ser o título máximo do "país" Nordeste. Se ser campeão é bom, imagine ter o maior número de títulos dela? E para além da contagem oficial, existem contagens que dão o que falar e uma das mais famosas é a do Esporte Clube Vitória, que além das conquistas da Copa do Nordeste em 1997, 1999, 2003, 2010 e 2026, adiciona o Torneio José Américo de Almeida Filho de 1976 num "pacote" de Nordestão, considerando-se 6 vezes campeão do Nordeste. Mais do que isso, unificando o título vencido na década de 70 como uma edição do mesmo certame criado em 1994.


O FQ traz uma série de informações sobre o Torneio, com relatos de jornais da imprensa nordestina e também do eixo meridional do país, onde a finalidade, os critérios de participação, moldes, oficialização, confederalização, federalização, calendários, alcunhas, judicialização e comprovação da existência de regulamento serão apresentadas. Todo os materiais comprobatórios sobre o certame foram consultados e extraídos da Hemeroteca Digital Nacional. E sem mistério, o que foi o Torneio?

O Torneio José Américo de Almeida Filho de 1976, também chamado pela imprensa de Torneio da Consolação, Torneio dos Eliminados, Torneio Nordeste, Torneio do Nordeste, Nordestão e Torneio Norte-Nordeste foi uma competição oficial e profissional criada pela Confederação Brasileira de Desportos, a CBD (atual CBF), com a finalidade de gerar calendário confederativo nacional aos clubes eliminados antes da 3ª fase do Campeonato Brasileiro, que era a fase considerada "elitizada", com o campeonato enxuto e ficando as 18 melhores equipes, que seriam divididas entre 2 grupos com 9 times, onde o líder e vice-líder de cada indo para as semifinais. Com o alto número de clubes sem calendário, a entidade máxima do futebol brasileiro criou um projeto de manter as equipes atuando em torneios paralelos do Brasileirão, além do José Américo, também foram disputados o Torneio Centro-Oeste e o Torneio Quadrangular Ministro Ney Braga.

Participantes e campeões dos interestaduais de "consolação" oficiais da CBD em 1976:

Torneio José Américo de Almeida Filho: ABC-RN, América-RN, Botafogo-PB, Confiança-AL, CSA-AL, Fluminense-BA, Sergipe-SE, Sport-PE, Vitória-BA (campeão), Treze-PB, Volta Redonda-RJ e Ypiranga-BA
Torneio Centro-Oeste: América-RJ, Atlético-GO, Brasília-DF, Dom Bosco-MT, Operário-MT, Comercial-MS, Goiânia-GO, Goiás-GO, Itumbiara-GO, Mixto-MT (campeão), Uberaba-MG e Vila Nova-GO
Torneio Quadrangular Ministro Ney Braga: Botafogo-RJ (campeão), Nacional-AM, Paysandu-PA e Remo-PA

Bahia-BA, CRB-AL, Náutico-PE e Santa Cruz-PE foram os nordestinos presentes na 3ª fase do Brasileirão, os mesmos que foram ausentes do Torneio José Américo de Almeida Filho

Troféu do Torneio José Américo de Almeida Filho de 1976, cedido pela CBD ao Vitória, em divulgação do Diário da Manhã, do Recife:


Diário da Manhã (PE), 27 de novembro de 1976

FINALIDADE

O Jornal dos Sports (RJ), considerado como o mais tradicional veículo especializado em cobertura de esporte do Brasil, informava que a CBD criaria competições "para manter em atividade vários clubes desclassificados do Campeonato Brasileiro", os quais seriam "três torneios que serão realizados paralelamente à disputa da Copa Brasil (então nomenclatura oficial do Brasileirão), sendo essa a finalidade para a disputa do José Américo e demais torneios interestaduais.


Jornal dos Sports (RJ), 06 de novembro de 1976


Jornal dos Sports (RJ), 04 de novembro de 1976


Jornal dos Sports (RJ), 01 de novembro de 1976

FEDERALIZAÇÃO, OFICIALIZAÇÃO E LEGALIZAÇÃO

Criadora e organizadora do Torneio, a CBD enviava informações as federações estaduais, em especial a Federação Pernambucana, que era a representante inter-regional da CBD no Norte/Nordeste. Os detalhes das partidas eram repassavas via ofício entre federações. E também era a Federação Pernambucana que definia os preços dos ingressos, o que provava a lisura de como o título conquistado pelo Vitória é de uma disputa oficial, profissional, liderada pela CBD e com trâmites cotidiados federalizados e legalizados.

A imprensa a todo momento destacada que a competição era "da CBD" ao referi-la.


Diário de Pernambuco (PE), 08 de dezembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 20 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 17 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 15 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 12 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 07 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 05 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 05 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 05 de novembro de 1976

As escalas de arbitragens das partidas do Torneio eram definidas pelo Departamento de Futebol da CBD, que em suas reuniões definiam os "juízes" e seus auxiliares:


Diário de Pernambuco (PE), 04 de dezembro de 1976

A imprensa ao cobrir os placares, tabelas e classificações do Torneio José Américo, separava o que era oficial de não oficial, competição profissional de jogos amistosos:


Diário de Pernambuco (PE), 15 de novembro de 1976

Além de seguir os trâmites profissionais e oficiais, o Torneio José Américo de Almeida Filho de 1976 também contou com toda base e estrutura judiciária, com seus jogos, processos e ocorridos sendo julgados e debatidos no Tribunal Especial da CBD:


Jornal dos Sports (RJ), 28 de dezembro de 1976

DETALHES TÉCNICOS E LEGAIS

A competição seguiu os trâmites oficiais e profissionais do futebol. Critérios de disputa, regras de substituições, uso de estádios cadastrados na CBD, transparência nas informações financeiras de renda e muito mais. As regras de substituições nas décadas de 1960/70 variavam entre 2 substituições, 3 substituições (sendo uma delas o goleiro) e 4 substituições (sendo uma delas o goleiro) e o Torneio vencido pelo Vitória seguiu essas regras.


Diário de Pernambuco (PE), 08 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 29 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 29 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 06 de dezembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 03 de dezembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 15 de novembro de 1976

A final, disputada entre América-RN e Vitória, realizada em jogo único no Estádio Marechal Castelo Branco, o Castelão, iria para as prorrogações em caso de empate ao fim dos 90 minutos e assim permanecendo, o título seria decidido nos pênaltis. A decisão foi em território potiguar pois o time alvirrubro conseguiu mais pontos em todo torneio até então, informações afirmadas pelo Diário de Pernambuco. Ou seja, todo o padrão profissional e moderno nos detalhes técnicos foram perfeitamente seguidos.


Diário de Pernambuco (PE), 17 de dezembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 15 de dezembro de 1976


STATUS E ALCUNHAS

Com nomenclatura oficial Torneio José Américo de Almeida Filho, o torneio interestadual ganhou alcunhas como "Torneio Consolação", "Nordestão", "Torneio do Nordeste" e "Torneio Nordeste".


Diário de Pernambuco (PE), 31 de outubro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 02 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco, 04 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 05 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 08 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco, 08 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 09 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 09 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 11 de novembro de 1976


Tribuna do Norte (RN), 11 de novembro de 1976


Tribuna do Norte (RN), 12 de novembro de 1976


Tribuna do Norte (RN), 18 de novembro de 1976


Tribuna do Norte (RN), 24 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 24 de dezembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 22 de dezembro de 1976

Nesta matéria do Diário de Pernambuco, são várias termologias e informações que exibem o que foi a competição. "da CBD", para afirmar que o torneio era da Confederação, "grupo B do Torneio Nordestão" em referência ao status do certame e "interferência do presidente da FPF, Rubem Moreira", em exibir a federalização fiscal e financeira do cotidiano:


Diário de Pernambuco (PE), 19 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 19 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 15 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 06 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 21 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 17 de novembro de 1976


Diário de Pernambuco (PE), 15 de novembro de 1976

O Vitória considera essa conquista como um título regional do Nordeste. E de fato houve o status de "Nordestão", muito por ter sido tratado e chamado assim por parte da imprensa, que também foi colocada à tratar desta maneira pela quantidade de estados e clubes nordestinos participantes, além de ter sido sediado na região, mas, assim como o Torneio Centro-Oeste e o Torneio Quadrangular Ministro Ney Braga, não teve fim de ser taças regionais, como a CBF fez para 2026, criando a Copa Sul-Sudeste e voltando com as Copas Centro-Oeste e Norte, foi um interestadual com a finalidade de gerar calendário nacional aos eliminados, o que fez essa mesma imprensa impor o apelido de "Torneio Consolação". E apesar dos status de "Nordestão" no José Américo, de "Quadrangular do Norte" no Ney Braga e do "Centro-Oeste", o seguimento geográfico não foi seguido, visto que Volta Redonda, do Rio de Janeiro, disputou o "Nordestão", o America, do Rio de Janeiro e o Uberaba, de Minas Gerais, disputaram o "Centro-Oeste" e o Botafogo, do Rio de Janeiro, disputou o "Quadrangular do Norte".

Existem elementos para o Vitória buscar o reconhecimento junto à CBF como regional do Nordeste, como status, alcunha popular, legítima promoção de disputa regional e sentimento de "Copa do Nordeste" por parte de quem disputou e viveu, mas também terá que vencer os contras como a própria finalidade do Torneio, que é o principal critério entre todos, pois o mesmo foi constituído, disputado e concluído para ser uma consolação aos eliminados, não houve critério elitizado geográfico, com participação partindo do insucesso na Série A, com os nordestinos classificados nas fases sucessores estando de fora do torneio e não foi um regional de fato, mas um interestadual, com abrangência de nordestinos por planejamentos logísticos, mas sem projeto de Nordestão, claramente na presença de um clube fluminense, o Volta Redonda.

De qualquer maneira, o Vitória possui um título interestadual oficial da CBD, com grandes e tradicionais times, estádios e torcidas nordestinas disputantes e que forjaram o Vitória a ser um clube campeão nos olhos do povo baiano naquele ano.

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